tobor e o amanhecer antecipado em seu dia.

vida simples, pensamento elevado.

segunda-feira, janeiro 30

Do vinho e The Mars Volta

Dos gracejos que eu fazia. Dos bocejos que você me escondia. Das coisas lindas que você me dizia ao pé do ouvido. Dos mentolados, dos lascivos, dos destilados, dos requintados, dos sentimentos, dos sofrimentos. Era disso nossa vida.

Era tão grande a culpa do sentimento, que não se permitia viver aquela história. A gente pulava muro, corria dos compromissos, escondia as cicatrizes das dores, ria de lado, mas mantinha a idéia. Era doloroso. Mas era gostoso. Mas era doloroso.

Do texto que ele me escreveu, só lembro umas poucas letras. Eram suaves e ele tinha um jeito estranho de me mostrar as coisas. Mas eu gostava. Nunca consegui dizer isso, mas eu gostava.

Ele me mostrou um vinho, ela me mostrou uma música. No final erámos vinho e música numa taça velha cheia de manchas de própolis. Sempre o improviso.

sexta-feira, janeiro 20

Nas virtudes de um homem só

Visão

Nasci no ano do Big Brother, fantástico Orwell. Nunca tive problema algum de saúde durante toda minha vida. Nunca possui uma alergia. Nada me atinge. Nada. Apenas a luz. E o que mais existe nesse mundo além de luz?

Existia além de mim, apenas umas duas meninas naquela sala. Estava escuro e todos nós apertávamos os olhos como se refletores fossem postos na nossa frente. Um homem calvo me chama com seu dedinho indicador. Eu sempre quis usar jaleco. Acho lindo. E um dia sonhei em ser oftalmologista, mas num deu. O velho de jaleco invejável não me disse nada de novo e logo na saída percebi que, além das meninas, existia uma senhora de roupas sujas e bengala velha diante da porta. Ela também usava óculos, uns três óculos, no mínimo. Era estranho, mas prossegui.

Comecei a perceber que a mesma senhora se repetia em vários cenários, ora em um cachorro de óculos, ora em um poste alto da Avenida Central. Era muito estranho. Tudo é muito estranho. Um dia, o sol começou a se apagar diante dos meus olhos e toda dor parou. Aliás, num via nada diante de mim, só na minha cabeça. E um dedo me chamou pelo ombro:
- Menino.
- Oi?
- Sou eu.
- Quem?
- Seu destino.
- Meu o quê?
- Eu sou aquela senhora.
- Você? O que quer?
- Vim te guiar.
- Não preciso de guia.
- Precisa sim. Está diante de um buraco e não imagina o quão é fundo.
- Talvez eu precise mais do que um guia.
- Do que você precisa?
- Luz que não doa em meus olhos, imagens que não sejam estranhas e amor que não doa no peito.
- Desculpe. Você merece o buraco.

Tato

Em contraposto ao ato de observar, está o ato de tocar. Um ato extremamente delicado, suavo, lento e de extrema concentração. O toque, de tão sutil que possa ser, às vezes assusta. Existe o toque que machuca, o que consola, o que descobre, o que envolve, o que aponta, o que mistura, o que bagunça, o que afaga, o que amarga, o que transporta, o que falta e aquele me mata. Além de outros. Tem o toque que nada toca e o toque do tique-taque. Tantos toques. Mas o instante em que se passa do lançamento em vão das mãos ao seu primeiro contato com uma superfície é que se transforma em algo mágico. Naquele instante, todo um universo de objetos, texturas, formas, estados e reações são imaginadas. Ao alcançar seu alvo, os dedos passam a ser conectores de dois corpos. Passam a ser os olhos do corpo e da alma. Reconhecer algum objeto deve ser tão prazeroso quanto descubrir coisas novas. Afinal, estamos nessa descoberta o tempo todo.

segunda-feira, janeiro 9

Ah se não houvessem os amores, com sabores e odores diferentes.

O Paladar

Existia naquela época, uma mania de se fugir do trabalho e pular alguns muros. Conseguíamos chegar até uma pequena faixa de árvores próximas a saída da cidade. Eu e Júlia. Às vezes o Nalbert também ia. Mas ele era careta, tinha medo da vida. A gente corria por toda uma rua vazia, tava todo mundo trabalhando. Normalmente, com os bolsos cheios de bombons, cigarros e alguma ou outra coisa pra nos divertir. Chegávamos nas árvores, que chamávamos de Chinchila, e acendíamos os cigarros. Era engraçado. A gente sentava sempre do mesmo jeito, cruzando as perninhas. A Júlia tinha uma forma encantadora de fumar. Ela pousava o cigarro na boca e acariciava os lábios com a ponta dos dedos. Aquilo era muito excitante. Muito tentador. Até que um dia o Nalbert não foi. A Júlia descruzou as pernas e revelou a continuação das pernas. Eu fiquei tímido. Não agia. Ela virou pra mim e me ofereceu um bombom. Daí fechei meus olhos e esperei um movimento do vento. Fiquei ali sentado, de olhos fechados, desejando o bombom de Júlia e amando o silêncio que havia no lugar. Seus lábios começaram a se molhar diante dos meus olhos. Ela acendeu um cigarro, não dos caretas. Posicionou um bombom sobre a coxa e me chamou. O gosto inicial se misturava com a pele seca da perna de Júlia. A bala era de café. Adoro café. Adoro a perna de Júlia. Seu cheiro, seu gosto. Descobri nesse dia que café combina com muito mais coisa que chantilly e bulachas cream cracker. Mas mamãe não sabe disso. Né, Júlia?

O Olfato

Eu adorava roubar as presilhas das meninas na aula. Adorava sentir o cheiro dos cabelos delas que ficavam nas presilhas. Eu até colecionava as cores. E quando tava acabando o cheiro eu devolvia, pedindo desculpas com carinha de anjo. E roubava de novo! Era uma delícia. Cheirava presilhas o dia inteiro. Até que conheci a Joana. Ela não usava presilhas e tinha o cabelo mais cheiroso da sala. Miserável. Me deixava doido. Eu sempre andava um passo atrás delas, fungando o ar que ficava durante alguns segundos. Todos deviam me achar um louco, mas a Joana adorava. Ela se sentia querida e também fazia seus charmes. Um dia, fiquei doente e não pude ir à escola. Em casa, chorando de saudade, recebi uma carta fechada que possuia escrito na frente, em palavras garrafais: "da Joana". Meu sorriso foi ligeiro. Abri a carta e encontrei duas mechas de cabelo, ainda úmidas, com o cheiro mais gostoso de todo o mundo. Melhorei na hora. Fui pro colégio no outro dia com a certeza de que estaria de novo amor, com a certeza da minha felicidade conquistada. Mas a Joana saiu da escola, foi morar no sul e levou seus cabelos junto com ela. Preciso continuar?