tobor e o amanhecer antecipado em seu dia.

vida simples, pensamento elevado.

quarta-feira, agosto 15

haikai

aqui começo
o que não sei se terminarei
até aquele fevereiro


no estilo japonês:

apenas um haikai
com a natureza fixa
de uma neblina

sexta-feira, agosto 10

Ginga

Ao som do Sublime, eu me delicio. Dou aquela piscadinha marota que aprendi nos tempos em que andava com Juan. Ele me mostrou o baseado também. Muito bom. Mas enfim, dei a piscada e ganhei um sorriso. Pra mim, só isso já vale. Mas a gente sempre fica querendo mais e mais e mais e já já tá se vendo casado com alguém que nem ama mais, seis filhos, sogra, genro, prestação da casa pra pagar e a opção de ter ketchup ou não na rede de fast food. É muito rápido. Então decidi cortar o sorriso. Sorri de volta, me virei, peguei a coleira do Timbrado e chamei ele com um assobio. Ele veio com a linguona imensa balançando. Saimos da praia em cinco minutos e percebi que ainda estava sorrindo. Removi o riso e guardei no bolso. Comprei um sorvete de baunilha, que eu adoro, e caminhei devagar até a parada do bondinho. Acho que andei devagar demais, pois ela me alcançou. Ou não, vai ver ela tava indo para o mesmo lugar que eu. Que seja, ela me mandou o riso de volta. Eu tirei o dela do bolso e mandei de volta. "Como se chama?", com uma voz meiga apontando pro Timbrado. "Timbrado", eu disse com um ritmo tão impressionante que o Tom Jobim podia fazer uma música naquela hora. "Ele é lindo", ela falou sem olhar pra mim. "Ah ele também acha", eu querendo ser engraçado. Consegui. Ela sorriu mais aberto e mostrou que tinha todos os dentes e mais alguns (acho que contei os pre-molares duas vezes). "Você tá indo pegar o bondinho?", me perguntou com uma curiosidade de cientista. Olhei pro céu, olhei pra trás, olhei pras horas, olhei pros olhos dela e esqueci a hora que tinha acabado de ver. "Eu? Tou sim. Você também?", eu disse meio perdido. "Sim. Moro no morro.", disse olhando pra minha sunga. Mas porque que ela olhou pra minha sunga? Ela é só azul. Que é que tem? Que é que tem, diz aí? "Ih! Eu também, com o Timbrado", eu disse com aquela cara de quem fala mais do que é preciso, ou seja, cara de besta. Ela se calou. Se sentou num banquinho e esperou pacientemente. Na verdade, ela tinha entrado naquela fase onde a menina se recusa a continuar a conversação para que exista uma prova de quem o sujeito tem interesse nela. É um momento hiper delicado, pois qualquer falha na comunicação pode causar a idéia errada. Mas lembrei da sogra e da prestação da casa no futuro e não falei nada. Como que num ato misterioso, Timbrado sobe no colo dela e lhe beija a face. Claro que ele estava me mostrando como é que se beija um astro celestial, como pra conseguir tocar a lua numa superioridade incrível. Eu fui pegá-lo e acabei me desajeitando todo. Segurei ele pela barriga e toque a barriga dela. Ela levantou o braço pra me ajudar e tocou minha face. Ela sorria, eu sorria. Ela fechava os olhinhos, quando sorria, isso é lindo. Acabou que o Timbrado saiu da situação sem precisar de ajuda e eu fiquei na posição. Ela também. Tudo bem que a mãe dela morreu há três anos atrás e a gente já pagou a casa, mas me enfureço quando me oferem ketchup na rede fast food. Ah eu odeio!!!

quarta-feira, agosto 8

Darta

O seu nome é Maureen
(Mas prefere que não a chamem assim)

Da energia nos olhos
Da fala gasguita
Dos seios nada fartos
Da boca sadia
Do velho sorriso
Das loucas alegrias
Daquela música
Daquela poesia

Da dona das palavras
Dos anglo-francofônicos
Da rainha do brake
Dos olhos tanto côncavos
Da imagem invertida
Dos tambores hipersônicos
Da velha sacanagem
Do amor platônico

De toda a minha raiva
Das pressas de um certo dia
E da grande liberdade
De uma vida vadia
Dos designs hiperbólicos
Da tal selvageria
Das montanhas mais lindas
Dos lagos de mais valia
Dos sorrisos que roubou-me
Nos bons dias da minha vida

Bebamos à isso.

sábado, agosto 4

voltando na poesia

fazem oito anos que num poetiso, um pouco de ar fresco e liberdade.

Senhora

Me mata bala maldita
Me acerta bem no peito
Me faz da última mordida
Me arranca o respeito
Se me erras na partida
Que me encontres na saída
Pois pra mim não tem jeito

Me vem depressa voando
Vinda do punho certeiro
Como que piscada de malandro
Com a pólvora de cheiro
Num compasso dançando
Entre átomos de um tango
No passo mais que perfeito

Caio de bruços no chão
Meu sangue me invade a alma
Meus olhos turvos de água
Me isolam da multidão

Agora sou eu e dona morte
Essa senhora que não tem calma
Diante do meu grande trauma
Me atinge na alma uma dor tão forte